Mesmo sem mundo melhor.

Vou aqui dizer-te
O que parece uma aberração
Criar um mundo melhor
Não é objectivo de um cristão

Muitos já sonharam
Com várias humanas vias
Mas viraram pesadelos
Todas essas utopias

Acham que este ser imperfeito
Consegue sozinho a solução
E nada fica direito
Acaba em destruição

Ideias do iluminismo
Vão aumentando de tom
Galopam para o abismo
E pouco têm de bom

Como podemos saber
Que esse futuro construído
Não vai ser para nos perder
Para nos tirar o sentido?

Se nem o amanhã eu sei
Como posso me arrogar
Que para mais depois saberei
O que irá funcionar?

O futuro a Deus pertence
E já nos deu conhecimento
Que tudo o que precisamos
É cumprir seu mandamento

Amá-lo acima de tudo
Ao próximo bem como a mim
E o restante se ordena
Naturalmente, assim

E na consequência disto
Se seguir o meu Senhor
Não é o mundo que conquisto
Mas a entrega ao Amor.

A aposta de Pascal

Queria eu poder explicar-te
Uma ideia pouco banal
Trata-se, querida amiga
Da aposta de Pascal

O argumento é tão certo
Não há, pois, confusão
Não preciso ser esperto
Pr'a tirar a conclusão

Se estudares o que Ele disse
Quando andou pela Terra
Vais amar sua palavra
E a verdade que ela encerra

"- E se não é bem assim
Será tudo um engodo
Isto é tudo o que há
Não existe mais que o todo"

O que diz o matemático
Bem pensado, por sinal
É que não há que ter medo
Concordas com este mortal?

As promessas são grandes
Pois te digo e repito
Que se aderes a Jesus Cristo
Vais ganhar o infinito

E se for mentira
Um equívoco, um engano
Ao que digo, nada retira
É inexistente o dano

Porque se leres o que diz
O importante que ressoa
O pior que te acontece
É tornares-te boa pessoa

Tens dúvidas sobre isto
E medo desta aposta
Olha que Ele é teu amigo
Aceita a sua proposta

Sabe mais um pouquinho
Procura e lê um bocado
Trilha este caminho
Que faz o Deus encarnado

Se algo tu rejeitares
Não será viagem vã
Pelo menos conheceste
A cultura judaico-cristã

Se ganhares, ganhas tudo
Se perderes, não perdes nada
É uma escolha de miúdo
Uma bem simples charada

Que grande argumentação
Não está mesmo nada mal
Sim senhor, grande aposta
Parabéns Blaise Pascal.

Infra-sociais

Assim estou eu aqui
Em actos infra-banais
A catar o lixo que me dão
As nossas redes sociais

De todas as vezes
Acho, vai ser diferente
Mas talvez a verdade
É que eu esteja dependente

Uma meia novidade
Aquela pessoa quase-aflita
A última teoria
Ou uma cara bonita

Pergunta-me amanhã
Que te volte a dizer
Vou ter, pois, que confessar
Tudo acabar por esquecer

Que coisa esquisita esta
De tornar sempre a voltar
Sei que serei mais feliz
Quando decidir cortar

São tudo falsas promessas
Equivocada comunicação
É felicidade às avessas
Sementes de polarização

Liberto-me e saio à rua
Vejo tudo no ecrã especado
Está assim cada um na sua
Vai demorar um bocado

Seja meses, seja anos
A cantar de festa em festa
Minhas manas e meus manos
Conseguimos, vai ser desta!

Marmita comunitária




Saio de manhã
Com amigos e amigas
Vamos trabalhar
Para o campo colher espigas

Trazemos a alegria
A ternura e o carinho
E assim bem colorido
Levamos o comer quentinho

No fim de toda a labuta
Sentamo-nos a merendar
E depois de tanta luta
Comemos a conversar

Ele é tanta beleza
Que há para descrever
E ainda imaginamos
O que mais está para ser

E assim a Nosso Senhor
Agradecemos pela vida
Também pela bela marmita
Em que trouxemos a comida!

Querido Zé!

Oh Zé, tens medo de quê Zé?
Tens medo de mim porque me visto assim?

Passei por ti no outro dia
Ias de fato e gabardina
Fizeste grande reverência
A mim e à minha Joaquina

Oh Zé, tens vegonha de quê Zé?
Tens vergonha de ti por te vestires assim

Passei por ti no outro dia
Ias de gorro e roupa feia
Um dos teus olhos reluzia
Na tua cabeça uma teia

Oh Zé, tens inveja de quê Zé?
Tens inveja daquele por se vestir assim

Vi-te de calças pintadas
Fim de dia de trabalho
De cerveja na mão
A sonhar com o bogalho

Zé, tens saudades de quê Zé?
Tens saudades do tempo que não viveste enfim?

Sai daí Zé. Anda para o lado de cá.
Sem medo, vergonha, inveja ou saudade
Isto passa-se aqui, deste lado
Em frente a ti, querido Zé.

2011?

Perder as coisas poucas

Se o Nosso Senhor quisesse
Que eu tivesse muito dinheiro
Arranjava-me um trabalho
Ocupado o dia inteiro

Mas eu sei que a trabalhar
Nunca ninguém ficou rico
E só de assim pensar
Um pouco mais rico fico

Vivemos numa época
De exponenciação
Em que um simples videozinho
Pode trazer um milhão

Assim, apostar no ócio
Esperar pela providência
Pode ser um bom negócio
E virar uma tendência

É forma de não perder nada
Nada, pois, sacrificar
E na estrada biforcada
Para o sentido do sentido, virar.

Isto já não perco eu
Que faço o que acredito
Tudo o mais será acréscimo
Enquanto persigo o meu fito

São apostas pequeninas
Neste portefólio meu
Deixo de lado coisas poucas
A ver se ganho o céu

E assim vou seguindo
Aguentando cada dor
Tendo por bem mais precioso
Fazer a vontade do Senhor

Tudo o resto é transitório
Isto tenho bem presente
Quero o Reino dos Céus
Semear essa semente

Viver a tua palavra
Aceitar a minha cruz
Tudo acaba em Ti
Ó meu querido Jesus

Junqueira, 24 de Maio de 2021

Pelas pessoas

Ele saiu da taberna
Estava nevoeiro
Não acreditava no que era
O salvador do mundo inteiro

Ele sem nada em especial
Salvo no seu amor pelas pessoas
Não se submete ao material
Ele é todo pelas pessoas

Devagar que tenho pressa
Renascer a uma mesa
Não é coisa que se meça
Pelo andar do teu beber

Carolino, cara linda
Aproveita o teu olhar
Não para dentro, sim para fora
O mundo contagiar

Pão, pão que veio da mão

Pão, pão que veio da mão
Da mão do moleiro
Cansado, fiteiro
Da mão da empilhadora
Da mão da mulher
Lição tentador
Pão, que vem do perdão
Que reparto na mão
E dou a meu irmão
Pão, Pão, Pão
Pão

Olho para o computador

Olho para o computador
Ele a arrancar
Eu parado
Costumava haver tanto por aqui
E agora dá nada
Nem nada
Nem nada há
Só a nostalgia de um projecto
Horas e dias e semanas
E meses e anos
Passados nesta tela
Noutra tela
Tele aprendizagem
Chega
De ver o mundo assim
A verdade é que volto
Á espera de algo para mim
De tocar as teclas
De sentir propósito
Talvez em vez de um sotão
Tenha que ter um prédio de
Quarenta e sete andares
Com os aparelhos lá
Em cima de tudo
Para que vou subir agora?
Vale a pena
O pico de adrenalina?
A novidadezinha confortante?
Que me falta mais
Deitar pela janela
Para ser livre?